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Blog EntryApr 10, '09 12:22 PM
for everyone

Foi que tal e tudo, e eu nem queria falar disso, mas falo por excesso de tempo. Às vezes feriado prolongado faz isso. Às vezes não é o feriado, mas se a gente finge com certo grau de maestria, a realidade se funde com seu avesso.

Pois bem, estávamos lá e tal, aconteceu aquele incidente na sorveteria, cujo registro foi arquivado aqui:

 

http://docs.google.com/View?id=ddchtvpx_39g6h5x5ch

 

Você tem aí que o sorveteiro queria vender sabores diferenciados, mas para tudo que fosse diferenciado do diferente dele, ele dizia que não, por "inverossímil".

 

Ele vende sorvete sabor vômito, e se você fala em sorvete de ranho não pode, porque não está no cardápio pré-pronto da sorveteria.

 

Você pode inventar: só aquilo que já foi inventado. Mais que isso, ou seja criar, principalmente quando é criação propriamente dita (ex nihilo), é "excessivo".

 

Claro que não faz sentido. Se você analisa com lógica e racionalidade, não faz sentido. A não ser que você analise emocionalmente. Emocionalmente faz sentido, pois a postura do sorveteiro, o amigo da garotada, é puramente emotiva: ele não gosta de você porque um dia lá atrás brigou com você sem motivo, ele achou que você estava usando nariz de palhaço para tirar sarro da cara dele (quando na verdade era você quem passava vergonha com isso), e desde então declarou guerra não só a você, mas a tudo que você representa, não importa se isso que você representa é mais inteligente e mais qualificado. Para ele, não é o mérito intrínseco das coisas que está em questão.

 

Então, se você entrar de boné na sorveteria, ele vai dizer que boné em sorveteria não é permitido, e fazer toda uma comparação forçada com as leis de etiqueta dos tribunais.

 

Foi você que ensinou para ele o que é sofisma, e agora ele quer dizer que é você quem sofisma ao não ser capaz de entender a lógica surrealista dele pela ótica da lógica tradicional que ele pretende estar invocando para se justificar. Claro que ele nunca entendeu o que é sofisma, e você viu que não conseguiu lhe passar nada. E não teria como, porque ele não avalia os argumentos pelo mérito deles em si mesmos, mas lhes dá maior ou menor valor conforme a pessoa que os enuncia.

 

"Ah, foi fulano que disse isso? Então é inteligente. Foi beltrano? Então, automaticamente, essa proposição deve ir direto para o lixo." Por essa lógica, gato que nasce em forno é biscoito - e depois o surrealista é você!

 

Pelo menos rir a gente dá risada mesmo. Pena que não possam ver o quanto.

 

Sabe o que é mais bacana nos sorveteiros? O sorveteiro viu lá um espadachim, que era freguês e camarada dele, conversando comigo. Aí o sorveteiro fechou as portas para o espadachim. Pode dar risada, só rindo mesmo!

 

Ele chama isso de "posicionamento". Ele se "posiciona" não de acordo com a verdade ou a melhor razão, mas de acordo com a futilidade dos outros. Porque para ele é fútil, ou desleal, da parte do espadachim, querer manter canais de comunicação com todo tipo de gente, e mais que isso se sentir bem e à vontade com todo mundo.

 

Então é de acordo com os contatos que o espadachim faz que ele define como irá tratá-lo, pouco se importando se o que esses contatos têm para passar adiante é bom ou ruim, se é inteligente ou ignorante - ele não avalia pelo conteúdo, não avalia por essência, mas por contingências: é meu amigo? não é? Então, lixo.

 

Se tal postura é inteligente, me diga você. A meu ver, é bem o oposto do conceito de inteligente.

 

Se entra no conceito de "lealdade"? Você lembra quando um sofista foi discutir com Sócrates o que é lealdade? Eu lembro. Platão me contou tudo. Sócrates respondia com perguntas (maiêutica). Então ele disse:

 

- O que você acha que é lealdade?

- Ser leal ao meu amigo é apoiá-lo em todas as suas decisões e prestar-lhe suporte em seus projetos.

- Se o seu amigo dissesse que quer morrer, e pedisse para você lhe emprestar um punhal, você faria isso?

- Não, caso eu soubesse que a intenção dele com isso é se prejudicar.

- Então você apoiaria o seu amigo em todas as decisões dele e lhe daria suporte em todos os seus projetos?

 

Depois Aristóteles diria: "Amicus Plato, sed magis amica Veritas."

Platão é meu amigo, mas mais amiga ainda é a Verdade.

 

O sofista foi sendo paulatinamente obrigado a fazer tantas ressalvas à sua definição, que logo ele viu que não havia sobrado pedra sobre pedra do conceito dele.

 

Aquele conceito de lealdade do sofista não prestava — muito menos para os amigos dele.

 

Ser leal ao amigo é ter um posicionamento próprio a partir do qual você possa lhe dizer "nisso você está certo", "naquilo está errado", até porque muitas vezes as decisões do homem médio se baseiam em ressentimentos pequenos e recalques de ordem puramente pessoal, por mais que as pessoas tenham algum escrúpulo de lhes dar aparência de tecnicidade e objetividade, e se você quiser fazer o contraponto e completar seu amigo, precisa estar em condições de lhe oferecer a dialética, estar lá para lhe mostrar aspectos que, em determinados momentos da vida, ele não vai conseguir enxergar, devido a interferências instintuais e o emburrecimento provocado por emoções mal controladas.

 

Devo me interromper bruscamente, devido ao instinto da fome. Reapareço qualquer dia desses.

 


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